sábado, agosto 22, 2009

O Não-Golo

Estava um locutor, um comentador e um repórter a cobrir uma partida de futebol nocturna.
Quando menos se esperava, um cruzamento da esquerda, alguns malabarismos junto ao segundo poste, um mergulho em vão, uma perna e umas costas, um índio feito maluco lá na grande área e… está lá dentro.
Atravessou a linha de golo.
Encostou-se às redes.
O árbitro apontou para o centro do terreno. E não era um árbitro qualquer, era o vilão do Martins dos Santos.
Festejos e protestos.

Ao bom relato exige-se, no mínimo, que se diga de forma perceptível “GOLO” quando, de facto, é golo.
Como foi o caso.
Quanto mais não seja para os invisuais e amblíopes poderem imaginar o lance em questão com um nível de rigor aceitável.
Mas o locutor engasgou-se com a palavra, atordoado que estava a tentar discernir uma falta, um marcador, uma coisa qualquer. Naquele momento, cravar uma faca no coração equivalia a dizer “GOLO”. Era demasiado atroz que aquilo pudesse ter sido um. E meteu conversa com o repórter, procurando aliviar o seu pesar.
O repórter estava a pesquisar um dado estatístico rebuscado para se sair no próximo canto. Aquele incidente estragou-lhe os planos. Não viu bem o que quer que aquilo foi. Mas não estragou a onda e avançou com um nome, tentando discernir aquelas silhuetas ululantes lá na área. Também não foi capaz de dizer “GOLO”. Ora essa. O comentador interveio.
O comentador sabe que aconteceu alguma coisa, feito por alguém, mas não disse ao certo o quê. Houve um último toque para qualquer coisa e que foi Bermudez quem fez aquilo, mesmo sem intenção. Manteve-se seguro como quem diz “contem comigo, rapazes, eu já os conheço a todos de ginjeira, a bem dizer eu fui o único de nós que andou lá dentro, tenham juízo”.

Enfim, o máximo que conseguiram no meio de tanta estupefacção foi um fugaz “GOLO”, que salvou a sua vida fugindo por entre os dentes de Rui Loura. Queriam gajos a morrer ao microfone, exclamando "GOLO!" como se não houvesse amanhã? Queriam Benfica TV? Esqueçam, estes tipos jogaram pelo seguro e deram-nos com um banho de expressões sinónimas.
Queremos acreditar que foi por respeito ao futebol bem jogado: um golo daqueles é tão caricato que nem deve merecer honras de golo. Quanto muito, é apenas “uma bola que entrou na baliza”.
Foi uma… coisa, pronto. Mas não foi uma… coisa qualquer: esta… coisa foi a única… coisa que o Bermudez… coisou enquanto por cá andou. É um belo cartão de visita.

terça-feira, agosto 18, 2009

Vota Caneira

É mesmo verdade: Caneira foi lançado às feras do mundo da política e o seu padrinho é nada mais nada menos que Fernando Seara, esse putativo candidato a candidato a Presidente do Benfica, mais conhecido como comentador que não diz os L’s e que, de vez em quando, também passa por autarca.

Os dados estão lançados e a decisão caberá ao povo de Almargem do Bispo. Este será o teste definitivo às capacidades de liderança de Caneira, que já se auto-exaltou no passado como “grande líder” e tudo… embora as suas cores políticas sejam diametralmente opostas às de Mao Tsé-Tung. De resto, a carreira futebolística de Caneira parece ir abstendo-se de grandes acometimentos à medida que caminha para o ocaso e nada melhor que um bom tacho, aham, cargo político, para livrar-se de uma vida pós-futebol dedicada à restauração e à criação de suculentos leitões, que, embora riquíssimos em valor energético, são pouco consentâneos com quem veste Sacoor Brothers e Timberland.

Segundo o que a nossa SAD apurou, Caneira começa bem, como um bom político: prometendo coisas irrealizáveis. Neste cartaz exclusivo da nossa SAD, garante que irá passar o meio-campo. Ou seja, demagogia pura. Já só falta dizer “jogo bem em qualquer parte da defesa”, “farei cruzamentos temerários na linha de fundo” ou “aquele golo ao Inter não foi sorte”.

Para além do slogan orelhudo, Caneira também iniciou uma campanha para limpar a sua imagem pública, depois de ter entrado na votação para “jogador mais feio do Mundial 2006”, a sua primeira grande experiência eleitoral. Como tal, Caneira foi visto com a socialite Paris Hilton a sair de um clube nocturno de Beverly Hills, com o intuito de passar uma imagem benquista junto do público feminino e com a secreta esperança que Hilton possa vir a recensear-se em Almargem do Bispo rapidamente e assim depositar mais um voto nele. Hilton, por seu turno, declarou-se “farta do Cristiano Ronaldo e pronta para desenjoar com um tipo com cara de low-life”. “Este ao menos não me finta”, disse, entre sorrisos que podiam ser derivados da embriaguez dela, nunca se sabe. Mais tarde, mostrou-se desiludida quando soube que, afinal, aquele não era o Karagounis mas sim o Caneira. “O dos leitões?”, perguntou. Quando dissemos que sim, ela respondeu “oh, dear…” e despejou o seu Möet & Chandon para cima do seu caniche, francamente desencantada por Caneira, apesar de jogar em muitas posições, não ter demonstrado qualidades técnicas por aí além.

Os seus apoiantes dirão que Caneira pode não ser muito veloz nas transições defensivas, mas que tem um conceito muito amplo de cidadania.
Os seus detractores dirão que isso da cidadania é muito bonito, mas, lateral por lateral, até o André Marques devia dar um melhor Presidente da Junta.

Caneira, para já, tenta seguir o livro do bom político. Quando instado pela nossa SAD a comentar o seu plano de candidatura, respondeu como todos os políticos respondem quando a resposta exige algo mais que “sim” ou “não” e os seus advogados não estão por perto: “Não comento”.

Ou em vídeo, via maisfutebol.

sábado, agosto 15, 2009

Baston Revisitado

Burgos, 1994

(conversa traduzida de castelhano para tagalog, de tagalog para inglês e de inglês para português)

- Sr. Presidente, posso dar-lhe uma palavrinha?
- Sim, claro, dou sempre ouvidos ao meu treinador.
- Sr. Presidente, I think we have a situation here. [NOTA: a tradução para tagalog custou-nos um dinheirão, por isso cortámos na tradução inglês-português]
- Então, como assim?
- Aquele rapaz que temos na baliza…
- Rapaz?
- Yeah, o careca de bigode que perdia sempre a jogar poker no estágio…
- Oh, thaaat goalkeeper!... O que tem?
- Estive a fazer um estudo cuidado do seu perfil, analisei bem o seu potencial, enquadrei-o face às ambições da nossa equipa e cheguei a uma conclusão.
- Que foi?
- We gotta get rid of that son-of-a-bitch. Now.
- Ooooh!... Porquê?
- Porque os testes que efectuei provam que ele é um óptimo carteiro. É mesmo o indivíduo do plantel que mostra as melhores aptidões para exercer esta tarefa. E estes testes são infalíveis. But we’re not looking for a bloody mailman to save our goal! Sir, temos que encontrar um tipo a sério, se quisermos manter a dignidade.
- Tipo o quê? Um Filip De Wilde?
- Hell no! Para já, ficávamos com o nosso suplente, que acabou de cortar 8 dedos na máquina de cortar relva, mas que é um bom rapaz e o melhor genro que um treinador pode ter, if you know what I mean.
- Acha que esse suplente dá garantias, sem esses dedos todos?
- Well, he told me that he expects his fingers to grow back until Tuesday…
- E acha que isso vai acontecer?
- Bem… Se não for Terça será Quarta ou Quinta, depende de como o Betadine actuar… Nós temos é que resolver este “caso-Baston” já! Ele está a afectar a moral da equipa!
- E para onde o vamos despachar?
- Beats me… Hey, you’re the boss, not me…
- Quem seria capaz de o receber sem levantar questões?
- E que tal… o sr. Presidente não se dava muito bem com um tipo chamado Toñino que foi jogar para um clube português, o Sporting of the Keys? Parece-me uma boa opção, tínhamos facilidade em recomendá-lo…
- That’s it! We’ll send him there! O Baston não será mais um problema para Burgos!
- Nem para Espanha!…
- God be praised!

Chaves, 1995

Ao princípio, as gentes achavam-lhe graça. “Olha, pai, parece o nosso carteiro!”, dizia a criança nas bancadas graníticas do Municipal flaviense, agitando a bandeira azul-grenat pelos ares robustos do Marão. Toda a esperança do mundo estava depositada naquele guardião espanhol, o símbolo do renascimento do Desportivo. Mas não tardou até que os calejados olhos transmontanos chorassem lágrimas de incredulidade e de desgosto profundo. “Porquê, pai? Porquê?”, interrogava-se a criança, esfregando os olhos sob o consolo paternal do progenitor, também ele vergastado pela desilusão, que lhe afagava o cabelo e a custo emitia “É apenas um pesadelo, filho. É apenas um pesadelo”.
Não. Era apenas a dura realidade.

quarta-feira, agosto 12, 2009

O Tipo Que Veio Com o Sá Pinto do Salgueiros

Lembram-se dele?
Concedemos que o marido da Luísa Beirão não tem o perfil cromático de um Quim Berto, por exemplo. Damos de barato que o tipo que engatou a Luísa Beirão consiga ensinar Benítez a cruzar para outro lugar que não o sector 32B e o eterno Kasongo a escolher o perfume certo para uma saída nocturna. Até admitimos que o gajo que é visto amiúde com a Luísa Beirão seria menos desengonçado a correr que Areias e que seria capaz de desdenhar a roupa da moda que Capucho em tempos usou. Ou talvez não.
Então, o que faz o indivíduo que não larga a Luísa Beirão por aqui, nestas paragens áridas onde impera a lei do cromo mais forte, onde as vedetas são massacradas sem piedade em recontros ao pôr-do-sol, sem Rey(es) nem (Hélio) Roque, e onde a mediania bem-comportada apenas merece a nossa complacência?
Bem, há uma forte razão: o cromo ilustra um dos momentos mais altos de toda a carreira do sujeito que já deve ter visto a Luísa Beirão com (ainda) menos roupa do que a grande maioria de nós já a viu. Sim, é mesmo isso – o jogo do Sporting contra a sua lua de então, o saloio Lourinhanense.
E não dizemos “momento alto” apenas pela galhardia com que o fulano que vai para a praia com a Luísa Beirão disputa o lance aéreo contra a equipa que poderia ter sido o seu destino e que foi o trampolim para as carreiras fulgurantes de Alfredo Bóia, Viveros ou Sabugo. Experimentem escrever Lourinhanense no vosso Word e logo vêem a reacção do programa do Office – ele sublinha Lourinhanense a vermelho, atónito perante a raridade. De facto, o simpático Lourinhanense, cujo grandioso emblema, para além de um leão, de uma árvore e de um sol sorridente, faz alusão à condição de satélite do próprio clube, não merece hoje mais que umas linhas de um jornal regional, depois de ter saído da órbita do Sporting e de se ter deixado absorver pelo buraco negro do anonimato.
Dizemos “momento alto” porque somos muito nostálgicos e tu, Pedrosa, fizeste-nos relembrar os bons velhos tempos desse mistério que intriga toda a juventude e que dá pelo nome de Lourinhanense. Lourinhanense, que podia ter sido um novo Alverca, uma nova big thing do futebol luso, mas cuja conjugação cósmica assim não o permitiu. Com muita Pena nossa.
E agora dá lá os nossos cumprimentos à Luísa Beirão, por favor. Da maneira que mais preferires.

sábado, agosto 08, 2009

Nito Bonito - Parte II

Houve um tempo em que os animais falavam, que havia fadas e princesas e que o F.C.Porto comprava dois ou três reforços criteriosamente. E também houve um tempo em que o Nito e o Spassov partilhavam várias aventuras e desventuras, como se estivessem numa reprise de Tom Sawyer e Huckleberry Finn. Eis a segunda parte de uma das suas tropelias (1ª parte):
(aumentar)

sexta-feira, julho 31, 2009

The G-Spot* Tomo 2

Na ressaca da semi-massiva infusão twitteriana pelo Mundo do desporto, sentimo-nos forçados a recuperar a rubrica mais popular da Letónia e de Vila Real de Santo António, The G-Spot.

Podem parar de enviar cartas, redigir abaixo-assinados e de organizar protestos com armas de fogo na Venezuela, The G-Spot está efectivamente de volta.

O Duque do Vocábulo Simétrico do Cautchú, esse, nunca nos deixou. Pelo contrário, deixou-nos doces torrões de relva, ainda frescos e acabados de arrancar. E nós, com toda a humildade, iremos servir-vos esses mesmos torrõezinhos num plateau de ouro.

Sentai-vos, barrai os olhos com manteiga e espalhai compota no monitor, porque estais prestes
a degustar uma sanduíche de inigualável prazer cromático:


- "A Vieira só falta contratar um adjunto chamado Maomé, para assegurar vendas de kit sócio a todas as religiões. Lastimável."

- "Jesus promete Benfica a jogar o dobro. Para este milagre da multiplicação é preciso transformar água em vinho e aproveitar plantel actual."

-"A cavalo dado não se olha o dente, mas por 15 milhões Milan exige cremalheira sem defeitos antes de engrenar contratação de Cissokho."

-"Franco-atiradores verbais do futebol luso aterram no Médio Oriente. Com Pacheco e Cajuda a paz, essa, avista-se mais longe.".

-"Moutinho desconhece interesse de Real. Também Beto era dado como certo no Real a cada época balnear. Com papas e bolos se enganam os tolos."

-"Após Ramires, Patric, Shaffer, Saviola, Javi e Weldon, Jesus continua no mercado por mais reforços. Verdadeiramente, um pescador de homens."













*
twitter de gabriel alves, um simples amante da geometria desportiva

quarta-feira, julho 29, 2009

Cinco Estrelas da Amadora

A Amadora já não tem futebol de primeira. É tempo então para recordar algumas figuras cintilantes dos tricolores suburbanos, quando estes saíram de casa às 7:00 para apanhar o comboio superlotado da Primeira Divisão (eram 20 equipas a lutar pelo seu espaço em 1988, todas de braço no ar e odor a sovaco sem desodorizante na cara umas das outras).

Iniciemos esta missão espacial por Cartaxo, que calha tão bem na Amadora como Alhandra em Leiria ou Mangualde em Paços de Ferreira.
Muitos não se recordarão de Cartaxo. Quanto muito, lembrar-se-ão apenas dos vinhos do Cartaxo. O que é tremendamente injusto. Cartaxo foi Sideshow Bob ainda antes do próprio Sideshow Bob existir. E, extremamente importante, adicionou à guedelha insubmissa um solene bigode, emprestando uma lusitanidade ímpar à personagem.
Cartaxo surge aqui com uma espécie de halo messiânico a envolvê-lo. Mas, futebolisticamente, Cartaxo com o seu lookD.Sebastião goes to Woodstock” não salvou a Amadora do nevoeiro exibicional enquanto por lá cirandou. E, em abono da verdade, o que ele fez antes e depois da sua estadia na Amadora também não é recordado por aí além, nem mesmo pelos indefectíveis adeptos estrelistas entretidos a ouvir os relatos do Sporting e do Benfica e que não arredavam o traseiro da almofadinha na bancada. Cartaxo, decididamente, não teve muita parra nem muita uva. Mas, enfim, tinha estilo. Algum, pelo menos. Isto é, se utilizarmos um critério muito largo para o conceito de “estilo”.


Para “estilo” a sério temos os dois Marlons. Designemos o primeiro Marlon por “Marlon A”. “A” de Alves, mas também porque jogava à defesa e aparecia antes do outro Marlon nas fichas de jogo.
Marlon A era um xerife do sertão. Era durinho e tinha mão para sozinho dominar manadas com centenas de milhar de cabeças de gado, dispensando o uso de cães nas vastas paisagens de Mato Grosso. Puxava para trás o cabelo besuntado com um resíduo petrolífero a que chamava parafina com o auxílio de um pente que guardava religiosamente na retaguarda dos seus calções. O pente era um derivado de canivete suíço e também possuía uma lâmina afiada, um saca-rolhas, um cotonete e um palito de plástico – que isto de ser vaqueiro exigia preparação para todas as situações. Gostava de fazer churrascos nas selvagens ruas da Buraca e era costumeiro ouvi-lo uivar nas tórridas noites de luar da Brandoa.
Mas o que devemos reter é o facto de ter possuído um aprumado bigode. Tudo o resto perde o seu sentido perante este símbolo de virilidade.

Marlon B, por seu turno, tornou-se numa verdadeira “pièce de résistance” estrelista, Birame aparte. O homem a quem um comentador do norte uma vez se referiu como “Marlão Brandon” chamava-se, na realidade, Marlon Brandão. Consta que o pai atribuiu-lhe o nome como tributo ao malogrado actor Marlon Brando. Talvez o pai se tenha arrependido quando viu “O Último Tango em Paris”. E, vai daí, talvez não – talvez apenas tenha mudado a sua perspectiva sobre as possíveis finalidades da margarina.
Marlon B chegou e varreu o lodo que atolava o futebol estrelista com as suas longas melenas. Bradou “apocalypse, now!” às defesas contrárias e a bola era o seu grande desejo. Tornou-se o padrinho de todo o balneário, rendido que este estava às suas propostas irrecusáveis de bom futebol. Depois de uns tempos agradáveis, Marlon B fez-se à estrada e foi enquadrar-se no xadrez do Bessa durante uns bons anos, onde continuou a desempenhar os principais papéis. Ganhou um Óscar pela sua fantástica interpretação no spot publicitário do shampoo Organics, mas, rebelde, nunca chegou a receber o prémio, preferindo beberricar o seu cafezinho nas imediações da Boavista.

Rosário era pequenito e estava sempre pronto para a luta. Inspirou multidões com a sua “stamina”. Por exemplo, Didier Deschamps, que formatou a sua cara e o seu tamanho à imagem de Rosário (as semelhanças físicas são evidentes). Deschamps vira um Estrela da AmadoraPortimonense quando pensou em comprar um T2 na Reboleira e ficou abismado com a capacidade que Rosário demonstrou durante o aquecimento. Então, abandonou os planos de habitar na Reboleira (optou pela Venda Nova), voltou para França e adquiriu um “Kit Rosário”, que incluía uma máscara facial, um adaptador de tamanho, duas chuteiras e um corta-unhas. A partir daí, Deschamps deixou de ser um médio que corria muito mas não marcava golos para ser um médio que corria muito mas não marcava golos e que tinha aspecto de ser adjunto do Fernando Santos.
Aliás, durante a sua estadia na Amadora, Rosário já pouco se interessava pelo jogo dentro do campo. Rosário foi correndo e exercitando-se com afinco, mas apenas como preparação para o grande desafio da sua vida: acompanhar eternamente o engenheiro Fernando Santos. E ambos vão vivendo felizes para sempre, Santos com os seus esquemas tácticos e apertados nós de gravata e Rosário com os seus pinos e objectos de marcação variados.

Viagem que é viagem pelas estrelas não podia acabar sem uma referência ao mítico Bobó. Já sobejamente referenciado, este mito moderno desperta sorrisos entre os adeptos e funestas recordações de nódoas negras aos antigos adversários. É, provavelmente, o guineense mais famoso de sempre. É deveras curioso como os homens costumam suplicar recorrentemente pelo Bobó, apesar da sua carreira já ter terminado há bastante tempo, e as mulheres, três-meia-volta, estão com o Bobó na boca, mesmo aquelas que nada percebem de futebol. É um autêntico fenómeno de popularidade, este outrora vigoroso médio defensivo. Hoje em dia, porém, parece que nem o melhor Bobó de sempre seria capaz de reanimar o velho Estrela da Amadora.

quarta-feira, julho 22, 2009

A Literatura Do Futebol Português

As letras e a bola. O golo e o prefácio. Como se relacionam estes dois mundos?
Vale a pena cada cêntimo gasto a fotocopiar o livro. Forra muito bem a gaiola do meu canário (4,5/5)” – The Washington Post

Marinho Neves prova que não é preciso saber escrever para obter um best-seller. Aliás, Marinho Neves prova tudo sem provar nada (…) Devastador. (8/10)” – Le Figaro

Isto sim, é que é escrever! Já compras-te? Se não compras-te, compra já, ouvistes? (10/10)” – Leitor do “Correio da Manhã”

Sensualidade e perversão de mãos dadas, à boa maneira do bas-fond do futebol português (…) Bocage e Pier Paolo Pasolini passaram por aqui mas não pararam (8,5/10)” – Il Corriere Della Sera

Um fantástico romance de cordel de uma conceituada escritora de bordel (…) Bate a concorrência aos pontos e bate na concorrência para ganhar mais alguns pontos (4,75/5)” – Süddeutsch Zeitung

Isto sim, é que é escrever! Já compras-te? Se não compras-te, compra já, ouvistes? (10/10)” – Leitor do “Correio da Manhã”

Não acreditem no título (…) Coroado mostra que a sua memória está bem melhor que o seu sistema gástrico. Indispensável. (2,5/3)” – Het Nieuwsblad

Coroado pisca o olho a Saramago, flirta com Gabriel García Márquez, mas acaba por expulsar o Caniggia (…) Esperamos por nova admoestação (8/10)” – The Guardian

Ele diz que é do Belenenses mas cá para mim é lagarto (…) Tem muita mania (…) Acho que dava um bom cobrador de fraque (4/10)” – Leitor do “Correio da Manhã”

Os críticos ainda estão aturdidos com esta publicação, mas a nossa SAD já conseguiu, em exclusivo, um pedaço desta obra revolucionária:

Está mal escrito. Tem tudo para vender.

domingo, julho 19, 2009

Nito Bonito

Houve um tempo em que os animais falavam, que havia fadas e princesas e que o Benfica ganhava campeonatos. E também houve um tempo em que o Nito e o Spassov partilhavam várias aventuras e desventuras, como se estivessem numa reprise de Tom Sawyer e Huckleberry Finn.
Eis a primeira parte de uma das suas tropelias (clicar para aumentar):





(continua)

quinta-feira, julho 09, 2009

O Sr. Gila

Gila, ou a primeira vez que confundi um jogador da bola com um contabilista de Valpaços.

Mosaico Cromático

Estamos na Primavera futebolística, altura em que florescem novas ninhadas de cromos prontas a saciar a sede da massa adepta. É agora que os empresários e dirigentes saem debaixo da penumbra que os envolveu durante todo o estado de hibernação para copularem desenfreadamente em mercados distantes, fazendo despontar mil e uma ilusões sob a forma de um penteado esdrúxulo ou de um nome peculiar por um mero punhado de euros.
É certo que lamentamos a partida de algumas figuras que deram água pela barba à nossa SAD, mas a vida de um cromo é mesmo assim: uma bola a escapulir pela linha final, um atraso na chegada ao treino e, tumba!, lá se vai o cromo.
Felizmente, 2009-10 promete ser uma época tão profícua como as anteriores, deixando a nossa SAD imune à crise que dizem que grassa por aí (Cristiano Ronaldo que o diga).
Só para terem uma ideia, produzimos uma pequena peça artística apenas com algumas caras recém-chegadas à nossa I Liga, excluindo os três da vida airada (sabendo que o Sporting ainda está envolvido nas obras de reconstrução da Academia e o Benfica está a descobrir contratações para o FC Porto remodelar o plantel).

Uma plêiade de cromos bem intencionados e bem fotogénicos, mas que, infelizmente e como dita a Mãe Natureza, terá muitas dificuldades em resistir aos primeiros meses de vida na sempre dura I Liga deste nosso rectângulo. O espaço que medeia entre Julho e Setembro será vital para determinar quais os cromos desta fornada que terão algum sucesso e aqueles que… bem, apenas conseguirão que a nossa SAD se lembrasse deles. Também não nos podemos esquecer que, por vezes, estas novas crias cromáticas são acossadas pelos cromos já residentes, numa dura competição pela sobrevivência ao jeito de um programa da National Geographic aplicado à cromice dos balneários lusitanos.
Analisemos os nomes destes nados-vivos para a principal selva do futebol português de 2009-10:

NAVAL: Quatro crias para preencher a defesa, o meio-campo e o ataque: Lupedo, N’Kake, Aboubacar Tandia e o regresso de um dos nomes mais queridos dos caçadores furtivos de cromos da nossa praça: Ouattara. Um nome sempre em alta nas bolsas cromáticas e que promete não deixar os seus créditos por mãos alheias.

LEIXÕES: Também um ataque à cromice em toda à linha, com Cauê, Patrão, Faioli e o pouco simpático Trombetta.

BELENENSES: Mais modesto nas contratações de campo para compensar o afinco técnico-jurídico com que trabalha na secretaria. Barge e Yontcha dão, porém, um ar de sua graça.

GUIMARÃES: Um norte-americano, Kamani Hill, e um defesa, Lazzanetti, são as principais crias cromáticas do defeso vimaranense.

NACIONAL: Depois da alta taxa de natalidade cromática dos últimos anos, o Engenheiro Alves fez as contas à vida e concluiu que a segurança social nacionalista não podia aguentar aquele ritmo descompassado. Daí a implementação de uma política cromo-contraceptiva à qual escaparam Nejc Pecnik e Elisson.

MARÍTIMO: Nada a assinalar, a não ser repetir um nome que o site zerozero já indicava como parte do plantel de 2008-09 mas que, sinceramente, não nos cansamos de repetir: Takahito Soma, o japonês dos campeonatos nacionais. Veremos se fará hara-kiri ao primeiro copo de saké ou se será o kamikaze dos Barreiros.

PAÇOS DE FERREIRA: Três singelos nomes que não ultrapassam as quinze letras todos juntos: Rondon, Ciel e Bamba (não confundir com Bambo nem com a mulher dele; ele é Bamba como a corda).

SETÚBAL: Os ares de recessão do Sado não impedem que se tragam nomes do quilate de Djikiné e Ladji Keita.

ACADÉMICA: O mais sintético dos reforços equipa de negro: Bru. Espera-se que gere um grande Bru(á). Nem que seja pelo seu penteado Milli Vanilli.

RIO AVE: Tempos de contenção junto às Caxinas. Mas ainda há um Wesllem para apreciar.

BRAGA: Saudosos os tempos do Ganga, Johnny Rodlund e Kim… Talvez Joabe desperte alguma atenção cromíflua.

LEIRIA: Alguma expectativa em torno do guardião Andjelko Djuricic (o novo Miroslav Zidnjak?) e de Sow (o novo Salam Sow?)

OLHANENSE: Autêntica mãe de aluguer cromática desta competição, abraçando todos os filhos que o FC Porto deserda. Desta creche imensa, destaca-se o irascível Zequinha, agora com a oportunidade de ouro para agredir algum interveniente do jogo em prime time. Para além dele, há o Gomis (com “i”).

Resta-nos desejar a todos eles boa sorte… e em Janeiro cá estaremos para analisar uma nova prole.

quinta-feira, julho 02, 2009

Cílio* Season

Encontramo-nos em plena Cílio Season de preparação para a época de '09-'10, e o esférico local continua animado e impregnado de cromífluidade como sói acontecer.

Nós aqui no Cromos da Bola SAD, temos orgulho e fazemos gala que nos considerem gente simpática, agradável. We care.
Vai daí, começamos a nossa resenha pela agremiação lúdica de Alcochete. Depois de completarem um tetra-vice-campeonato, está na hora de ficarem em primeiro nalguma coisa. Um pouco de solidariedade fica sempre bem.

A nossa viagem por terras de Alvalade principia com uma nota negativa: a dieta cromática. De um assomo apenas, os responsáveis leoninos pretendem emagrecer o plantel de modo a evitar o excesso de colesterol autocolante que os afligia.
"Pipi, Ronny & Tiuí" deverão levar o pouco futebol que têm para outros campeonatos, mas se o fizerem em conjunto, nós ficaremos un petit peu felizes, porque não é todos os dias que um trio chamado "Pipi, Ronny & Tiuí" faz carreira fora do ramo circense.
No sentido inverso, deverá ingressar o avançado Caicedo, que faria uma excelente dupla ao lado de Cailogo, sendo ambos magistralmente servidos pela formiguinha centrocampista Cai-e-Rebola.

















Ainda por Lisboa - ou Alcochete - assistimos à recriação histórica da Batalha de Aljubarrota, mas desta feita sem espanhóis, sem padeira, e com armas mais rudimentares do que em 1385. O orçamento não dá para tudo.
Em 2009, os arcos e flechas da batalha original foram substituídos por essa tecnologia insuperável do Séc. XXI conhecida por pedra.

Passemos então ao outro lado da barricada (literalmente), onde se encontram os crónicos animadores da Cílio Season e actuais Octa-Campeões do defeso, os enérgicos senhores do Sport Lisboa e Rui.
Numa brava contenda reminiscente dos habituais braços-de-ferro entre os governos-fantoche estadunidenses na América do Sul e respectivas guerrilhas de extrema-esquerda, as eleições do clube decorrem na maior normalidade. Isto tendo em conta que a normalidade, no que respeita à referida agremiação, passa por tratar todos e quaisquer assuntos a bordo de um avião privado - política instituída por São Costa em '08: "Passarei todo o tempo disponível o mais perto possível de meu Pai, o Sr. Deus." (versículos de São Costa, 12:4).

Assim sendo, o novel candidato ao presidencial bigode do Sr. Vieira, nado na odiada urbe dominada pelo visceral inimigo azul, mostrou-se desde cedo identificado com a vigente mística clubista, apresentando a sua candidatura a bordo de um aviãozinho privado, denominado Eagle One. Provavelmente não queriam que o confundissem com o Eagle Two, onde o grémio luxemburguês Fola Esch costuma apresentar os seus equipamentos novos...ou até mesmo com o Beagle One, local de eleição para as conferências de imprensa do lateral-esquerdo do Lusitano Ginásio Clube Moncarapachense, mas tendo em conta que este último se trata de uma carrinha da Volkswagen, o engano seria menos provável.

Porém, eleições antecipadas, órgãos demissionários, golpes de estado, providências cautelares, garotos, tribunais de primeira instância (já levaram mais coça recente nos tribunais, do que na UEFA '08-'09 inteira), alterações de estatutos e bigodes à parte, as eleições do Benfica Lissabon correm dentro da maior das normalidades. Viva a democracia.

No que respeita a futebol (ou quase), o defeso também tem prosseguido dentro do usual. São Costa (cujo nome não deverá JAMAIS ser pronunciado em vão) continua na sua particular demanda de montar no Benfica de 2009-2010 um fac-símile do River Plate de 2000-2001. Para tal, delineia três requisitos para os novos reforços:

- preço de custo acima de 5M de Euros.
- número inferior a 10 jogos disputados desde 2007.
- facilidade na interacção com lesões musculares.
(mais informações em www.reforma-antecipada.gov.pt)









(com esta alcunha, vai ter vida difícil em Portugal)

A Ai(!)mar e Saviola (aguarda-se pelo primeiro embate Rabiola vs Saviola) São Costa planeia juntar Ricardo Rojas (saúda-se o regresso) e Ariel Ortega, apelativos por terem sido bons executantes em 2001 e por estarem basicamente arredados do futebol profissional há mais de 300 dias. De resto, a Divindade da Damaia já se encontra em conversações com os agentes dos referidos (ex-)futebolistas, com o intuito de inflacionar os seus passes até aos 5M pretendidos.
Neste momento Sua Santidade estará já de regresso à capital lusa a bordo de seu avião particular, onde decorre uma informal sardinhada com amigos de longa data como Sto. António, São João, São Pedro, Ghandi, Deus e Madre Teresa de Calcutá.

A única excepção à banalidade que tem sido esta Cílio Season benfiquista dá pelo nome de Pedro Mantorras, dado ser o primeiro defeso desde 1962 em que o avançado angolano não vê um joelho seu ser autopsiado. Saiba mais informações sobre o universo encarnado no programa "Couratos e Bifanas"(não, não estou a gozar), na sempre isenta Benfica TV.

Mais a Norte, a primeira transferência milionária do corriqueiro êxodo de Verão portista foi abortada devido a meia dúzia de cáries, ou mais concretamente, a uma mordida assimétrica. Por muito irónico que seja o facto do clube de Ronaldinho Gaúcho rejeitar um jogador por causa de uma cremalheira agressiva, pergunto-me se a infame pasta de dentes de Jesualdo terá sido impingida ao restante plantel. E em simultâneo ficámos a saber a razão de Armando "Le Petit" Teixeira nunca ter jogado no AC Milan, dado que provavelmente terão reparado na marca canina que o trinco deixou na perna de um Pirlo qualquer, em alturas do seu último confronto com os milaneses.
Já dizia São Costa (posteriormente eternizado na cúpula do Duomo) aquando da sua passagem por Milão: "Non mi piacciono le morse assimetriche, madonna!" (versículos de São Costa, 10:1)
















Umas paragens de metro mais abaixo, um ex-campeão caído em desgraça (podíamos estar a falar de Mike Tyson, até porque isto vai incluir drogas e xadrez, mas...não) levou recentemente mais um golpe nos queixos, quando o seu ex-assalariado Fernando "L'Enfant Terrible" Mendes o acusou de práticas menos edificantes. A saber:

"Havia jogos em que entrávamos no balneário e perguntávamos: onde está o milho? Aparecia o massagista com uma bandeja recheada de seringas para dar a cada um. Parecíamos galinhas de volta do prato, à espera da vez"

Ora, conhecendo nós o plantel axadrezado de '91-'92, pensamos ser seguro afirmar que o jogador mais similar a uma galinha seria o icónico Alfredo, mas com certeza que Ivan Pudar não lhe ficava muito atrás nesta incursão pela ordem galliforme.
De qualquer forma, longe de nós imaginar que o clube do ex-vocalista dos Ban estaria envolvido neste tipo de despudorada prática, especialmente depois de vermos o proverbial pastelão romeno Ion Timofte a disputar desafios com a fortaleza física e raça de um Bobó sob o efeito de esteróides. Longe de nós.

Nenhuma crónica sobre a Cílio Season estaria completa sem a celebração anual da não-despromoção dos brasileiros do Restelo via secretaria. Os motivos invocados variam de ano para ano, mas a impressionante regularidade da supracitada celebração surpreende pela criatividade nela empregada.
Em breve publicaremos nova pollga relativa a esse assunto que roubou António "Peúgas" Fiúza da divisão principal da nossa bola. E em Cromos da Bola SAD, não gostamos de ver um dos nossos cair.

Continuação de uma Cílio Season prazenteira, e cuidado com os aviões particulares.
"Este post a roçar o herege termina aqui." (versículos de São Costa, 12:4)

*ex-Deus de Gondomar, actual Nanjing Yoyo

segunda-feira, junho 29, 2009

Alcochete a Ferro e Fogo

Pedro Barbosa está na sua rústica casa de campo a comer um croissant com recheio de ovo. Um mega croissant, refira-se. Desloca-se na cadeira de rodas até à janela e ao fim de longos 15 minutos consegue finalmente vislumbrar a lassidão da paisagem. Ao fundo, uma nuvem de fumo parece indicar o fim da tranquilidade: era Rui Costa, o santo que fez o milagre de sacudir a água do seu casaco Hugo Boss (versículos de São Costa, 16:9), varrendo a planície a espumar de raiva.
Barbosa, com a sua placidez habitual, rumina mais um pouco o seu croissant e deixa-se estar.
- Eu é que não era maluco para começar a correr com este calor todo… - pensa com a sua franja que tomba resignada sobre a testa.

Costa, o santo que fez o milagre de gastar todo o orçamento do Malawi em contratações do calibre de Balboa (versículos de São Costa, 4:3), avança imparável destruindo azinheiras, esquartejando bolotas, dilacerando os bonecos Playmobil do Miguel "o Miguel" Veloso, escavacando as ene balanças do Rochemback, incendiando os pneus do seu patrão e disparando indiscriminadamente a sua metralhadora como se fosse o Rambo no Afeganistão. Ainda estrangulando um esquilo, chega à janela térrea donde espreita Barbosa.
- Eu passo-me quando não vejo condições! Eh pá, dá-me cá uma raiva que nem queiras saber! Parto tudo o que vejo à frente! – desabafa Costa.
Barbosa prefere dar início ao croissant com pedaços de amêndoa na cobertura. Não responde.
- Mas isto é o quê, pá? Jogar à bola na relva? Na relva? Mas aonde é que chegámos, pá? A relva é para os bois e para as vacas não sagradas, pá! Não é para mim! Essa porcaria está cheia de pesticidas, pulgões e ácaros da mais variada espécie! Só admito espalhar classe num tapete de veludo beatificado pelo vinho santo do São Vilarinho (versículos de São Costa, 7:1)!
- Hmm, hmm – grunhe Barbosa. Provavelmente, sentindo a delícia do praliné gostoso.
- E que porcaria de entrada em campo é esta, pá? Eu ando sobre as nuvens ou sobre a água… mas sobre a terra batida? Ó Barbosa, isso é mesmo para provocar-me, não é? Tu queres que eu me passe dos carretos, não é? – e dito isto, Costa parte violentamente um vaso que estava no parapeito. Barbosa demora alguns segundos a responder.
- Eh pá, não me partas a louça!... Tenho tantas dificuldades para a pagar… Agora puseste-me triste e já não me apetece falar mais… Vou afogar as minhas mágoas num vulgar croissant de chocolate. Ou melhor, num pastelinho de nata, que está mais queimadito, coitadinho… Eu tenho muita pena dos pobrezinhos…
Mal Barbosa finca o dente misericordioso no pastel, Costa abespinha-se:
- Esse pastel não tem condições! Alertei a ASAE e eles não fizeram nada quanto a essa questão! Essa porcaria só aumenta o colesterol! E isso deixa-me… furibundo! AHHHHH!!!!! – ao mesmo tempo que grita, Costa imprime uma sacrossanta cabeçada na persiana, desfazendo-a em pedaços.
Barbosa, de boca cheia, tenta por tudo mover-se para agarrar e acalmar São Costa, mas só consegue mexer ligeiramente o indicador enquanto cospe um bocado do pastel:
- Ó ‘Osta… ó ‘Osta, ‘tá lá ’ieto com isso... assim ‘ás-me ‘abo da ‘asa…
- Mas qual casa, pá? Isto é um casebre sem condições! Isto é o terceiro mundo! Pensava eu que eras um visconde!...
- Tenho uma casa humilde. Por favor, não me destruas os estábulos nem importunes as éguas. Pode ali estar um novo Ronaldo e eu preciso disso para comer.
- Ronaldo?!? Bah, um jogador sem condições para o Benfica!
- … mas olha que ele é caro como o caraças…

São Costa ouve falar em coisas caras e refreia os seus ímpetos.
- Mas… caro, como assim?
- Muito caro.
- Tipo… bué, bué caro?
- Caríssimo. Do mais caro que pode haver.
São Costa escuta uma música celestial e um halo de luz desce dos céus, envolvendo todo o seu fato Armani. Hossanas ao Senhor, podia estar ali o novo reforço! Costa está muito interessado em saber mais.
- Hmmm… E o tipo joga bem?
- Então não? É do melhor.
Costa enfurece-se outra vez.
- Eu logo vi! Não tem condições! Tem de ser caro e não valer a ponta de um corno para ter lugar no plantel! O verdadeiro símbolo do Benfica sou eu!

Barbosa já chupa os dedos e lança um olhar apaixonado sobre a travessa de bolinhos de coco que repousa sobre a sua caminha de feno. Nota-se que Barbosa gosta de comer enquanto os outros estão a falar e por isso tenta prolongar um bocado a conversa.
- Mas o símbolo do Benfica não é a águia Vitória?
- É um animal sem condições! Só eu possuo condições ideais!
- E antes não era o Eusébio?
- Tem algumas condições, nomeadamente no que concerne à identificação do marisco… mas não chega!
- E porque é que tu…
- Porque eu sou do povo e tenho um BMW topo de gama, estofos de cabedal e jantes de liga leve, que conduzo com alto estilo e óculos Ray-Ban a condizer, ´tás a ouvir? Quase quarenta anos e um cabelo de pedir meças ao Mick Jagger, ´tás a ver? Sem um cabelo branco que seja! E tu, ó visconde falido?
- Tenho um tractor agrícola Same. Dá jeito para apanhar a azeitona.
Costa, o santo que tem a mais bela voz de todos os directores desportivos que fumam nos túneis de acesso (versículos de São Costa, 68:70), exaspera.
- Percebes agora o que te digo? Não tens condições!
- Não menosprezo o meu tractor – defende Barbosa, tirando a cereja cristalizada do topo do seu bolinho – Só eu sei a adrenalina que senti quando dei 30 Kmh pela estrada que vai do pavilhão ao relvado… sem capacete. Sempre a rasgar. Sempre nos limites. Uma loucura.

Entretanto, ouve-se o galo cacarejar e chegam notícias que dão conta que o jogo dos miúdos tinha terminado. Costa e Barbosa ficam frente-a-frente, num longo momento de embaraço, sem assunto para desenvolver. Costa, olhando para todo o rasto de destruição que deixara na modesta herdade de Barbosa, tenta improvisar uma despedida.
- Pá, então… Ficamos assim… Havemos de marcar um jantar um dia destes...
Barbosa aceita a sugestão com agrado, parando por instantes o seu semi-frio de café.
- Isso pode ser. Pagas tu? Sabes que eu ando um bocado à rasca… e agora ainda tenho de pagar o que tu partiste…
- Paga a imprensa – decide São Costa – Que esses trastes sirvam para alguma coisa! Ando cá com uma raiva a esses gajos!... Eu já os conheço a todos muito bem e tenho respostas muito boas para eles... Do género: eles perguntam-me “ah e tal, fulano e sicrano” e eu faço aquele sorriso malandro a mascar pastilha e só lhes digo “amigo, eu não papo grupos!” e eles ficam a andar à roda! Tomem lá! Quando penso nisso fico cá com uns azeites!...
Barbosa apazigua:
- Não penses mais nisso. A culpa é do Porto.
Costa é atingido em cheio no seu coração. Estabelece-se uma súbita empatia. A ira transforma-se em sorrisos.
- Nem mais! Nem mais! Pá, tu quando queres até sabes! Desculpa lá a maçada, ó Barbosa! Dá cá um abraço! Amigos como dantes?
- Tudo bem… pode ser… cuidado, não me esborraches o éclair. É o último e acho que dei um mau jeito no braço quando me estiquei para ir buscá-lo.

sábado, junho 27, 2009

Flama, o homem que todo o clube chama

Flamarion
Sim, Flamarion!!

Nao me digam que se tinham esquecido deste defesa brasileiro.
De seu nome, Flamarion Petriv Abreu. Já se lembram?

Pousou em Guimarães onde foi titular indiscutível. 30 jogos em 2001-2002. Numa equipa onde pontificavam Abel, Bessa, Rog. Matias, Cléber e William na defesa. E um ataque demolidor com Guga, Laelson, Fangueiro, Romeu e Sion. Grande tempos deste Vitória...

Mas voltemos a Flamarion.
Que foi feito deste senhor? Pois bem, rumou ao Estrela da Amadora, onde mais uma vez foi titular! desta vez treinado pelo sr chicla de boca aberta - Jorge Jesus.

Na epoca seguinte, Flamarion pensou: " fogo, na amadora? nem pensar! Ouvi dizer que na Maia é que se vive bem" e assim foi. Mais um ano titularíssimo. numa equipa com Erivan, Bodunha, Ricardo Nascimento, Saulo, Basílio.
Mais uma vez Flamarion mostrava a sua raça com 25 jogos.

Mas para mal dos nossos pecados, parecia não gostar de estar mais do que 1 ano no mesmo clube. Então rumou à Coreia Sulista, no Deajon. Depois Arábia Saudita, no Abha.

Depois... Mixto Coritiba! Que carreira, meu deuuuuuuuuus.... que orgulho.
A seguir o CSA de Alagoas e no ano passado o Caldense.
Digam lá que não foi uma poesia estas ultimas 3 linhas de clubes de futebol.

Obrigado Flamarion, por teres passado pelos relvados portugueses. Serás o ídolo de muita juventude.. quer dizer, de muita nao.. mas pronto, de algum. Principalmente aí em Caldas do Brasil!

domingo, junho 21, 2009

Rogério, o Matias

Rogério, o Matias..

dos poucos esquerdos, esquerdinos, canhotos.. vá, pé esquerdos nacionais.
A nossa selecção podia tê-lo aproveitado mais, é um facto, mas há 8/9 anos que andamos a adaptar jogadores a essa posição.. é o destino!

No meu tempo, quando eu era uma criança, ou seja quando eu era um Ricardo Labrecas depois de sofrer um golo, diziam que canhoto era mau e puxavam-me sempre para ser destro.
Ora agora pegam nos destros e tentam pô-los a canhotos.. ou então pegam nos médios que gostam de jogar a construir.. e põem-nos a construir buracos na defesa.

Bem, mas falando de Rogério O Matias, encontrámos esta bela foto no nosso baú de arquivos cheios de pó (ou será ? Ou Plinio? Ou Pinha? ou Peu) e teias de Beto Mãos d'Aranha.


















Espectacular.. esta foto feita na Maia, 10 minutos depois de Rogério ter ido ao cabeleireiro. Como é óbvio, este plantel liderado pelo Major e com a presença do esguio Miguel Barros, fazia merecer um jogador como este. Rogério Pedro Campinho.. reforço.... Campinho Marques Matias.

Subiu a pulso na carreira, sempre com esta imagem de marca do belo cabelo.
Nunca tinha encontrado alguém à sua altura.. e por isso no final da carreira pensou "Ê porque nâum jugári, compadris, onde alguém tenha um cábêlo à minha altûra?" (Rogério é ribatejano, fala assim)

E assim foi, obtendo este momento histórico que os nossos repórteres conseguiram sacar:













Palavras para quê? São 2 artistas capilares dos capilares relvados capilares portugueses.

segunda-feira, junho 15, 2009

Chamar a Música - A Sequela

Prometemos que iríamos regressar com mais uma ligeira incursão pelas profundezas sórdidas e insalubres do satânico casamento entre a bola e o mundo da música, e quando Cromos da Bola SAD promete, Cromos da Bola SAD cumpre.

Vota Cromos da Bola SAD.

Prosseguimos com um álbum que fez furor em 1997, um ano de boa colheita, que contou com surpreendentes clássicos do calibre de "O Meu Transistor Não Tem Pilhas" de Nicola Spassov, ou "Songs From Niksic" da revelação Drago Poleksic's Big Band.

Falamos obviamente de "Pequeñito en Old Trafford", o disco de estreia de Costa.


















Quatro cançonetas agridoces, imbuídas de uma ingenuidade desarmante e de um talento a toda a prova. Um tetra de chansons de travo gaulês, regadas com uma leve fragrância a escândalo.

O surpreendente petiz bracarense, lançado às feras pelo criativo produtor Tony Oliveira, mostra-se ao Mundo com a candura própria de quem sonhou um dia acariciar os maiores palcos planetários, e os afagou com a inexperiência própria da primeira vez.
E como não há amor como o primeiro, este álbum terá marcado definitivamente a carreira do noviço baladeiro, que se despede dos seus recém conquistados fãs com a derradeira faixa do álbum, a comovente "Au Revoir (el dulce beso de la muerte)".

De um beijoqueiro para outro, desta feita narramos as sensuais desventuras do indiscutível rei das lusas redes, pintadas a tons de sedução vocal.
Neno quer deixar uma marca indelével nas nossas almas, e sobretudo na nossa retina. Como tal, decide martelar-nos a visão com sete impressões do seu nome em maiúsculas, e mais três para a sobremesa, em minúsculas.
Questiono-me: Qual será mesmo o nome do álbum?













Será "NENO NENO NENO NENO NENO NENO NENO" ou "neno neno neno"? Ou ainda "NENO NENO NENO NENO NENO neno neno neno NENO NENO"?
Só sei que nada sei. Isso, e que o referido álbum será de certa forma homónimo. Provavelmente pluri-homónimo.

Para um artista cujo momento mais alto passou por ficar com o maxilar preso na rede, cheira-me a demasiado pretensiosismo...mas claro que o meu olfacto ficou irremediavelmente danificado desde que fui ao Festival do Feijão de Bucelas com o Odaír, o Pu e o Vinícius.
De toda a maneira, o meu sentido auditivo ainda está aí para as curvas, portanto podem contar com futuras versões da relativamente-premiada rubrica intitulada "Chamar a Música".

segunda-feira, junho 08, 2009

Cabelo À Homem (De Nkongsambaau)

Estava aqui a pensar com os meus Honi Serges: “tens mesmo cara de quem nasceu em Nkongsambaau”.


















Depois fizeste-me sentir melhor por nunca cortar o meu cabelo em Leiria.
E tu também não me pareceste muito satisfeito com o tratamento estético: mal fugiste da vista do feudal Bartolomeu, saltaste a fronteira e implantaste um tapete persa de qualidade duvidosa comprado ao tio-avô do Quaresma, logo ali a sangue frio na traseira da sua Ford Transit.

Com resultados avassaladores, diga-se de passagem:

A tua carapinha brilha no escuro, tal como um pirilampo mágico na área, constituindo o farol ofensivo para onde choverão bolas de pânico à medida do teu portentoso 1,73m.
Esta nova coloração também faz parte de um tratamento anti-lêndeas revolucionário. Um tratamento revolucionário para as próprias lêndeas, bem entendido, que têm na tua cabeça o seu resort de luxo com direito a spa e tudo. Ou seja, és uma espécie de Quitoso ao contrário.

Tu és mais que uma simples simbiose entre homo sapiens e pêlo de furão. Consigo distinguir em ti ligeiras fragrâncias de Abel Xavier e noto que piscas o olho ao Wesley Snipes. Se eu tivesse que arranjar um termo de comparação, diria que és um troll ao qual faltou correr o 2º CD de instalação do software. Mas como não tenho, coloco antes um termo às comparações.

Mesmo com essa performance capilar que pede meças a qualquer um dos vários Miguéis Velosos que andam por aí a destilar aversão aos pronomes, continuo a dizer: “tens mesmo cara de quem nasceu em Nkongsambaau”.
É um grande Gal.

terça-feira, junho 02, 2009

Champions League

Prestamos hoje a merecida homenagem a alguns dos mais ilustres campeões da nossa deprimida, porém sempre cromática Nação.

Começamos pelo topo; Liga com nome de cerveja que não é super, nem mítica goleadora de divisões inferiores, mas sim navio de referência e símbolo maior da Marinha Portuguesa.

De um trago só, a referida Liga foi uma vez mais engolida pelos senhores do costume, sempre sedentos e com vontade de beberricar uma loira fresquinha que recompense a longa caminhada, aqui e ali salpicada de cromicidade.


















E já que de cromicidade falamos, que seria desta conquista sem um pequeno canhoto argentino, ex-suplente de Lanús, clube atlético e sem feitos de monta para se gabar? Estaremos certamente a falar de uma mini e não um príncipe, apesar do dançável tango que nos terá sido propiciado.

Nélson, bebe amigo, pois logo serás expulso da mesa. Não tens culpa que outros prefiram o green, outros funcionem a diesel, e que no fundo, ninguém aprecie a mini. Mas deixa lá esses sacripantas, e pede mais uma para a viagem. Pagamos nós.

Arrumada a cerveja, desta feita tratamos de água, símbolo de pureza e juventude. Apesar da Liga que dela tem o nome ter sido relegada para segundo plano, vital continua a ser.

E já que de H2O falamos, nada melhor que recordar a intemporal cançoneta de um jovial baladeiro setubalense, que relatava um amor impossível - de duas vidas separadas pelo tempo. Duas lágrimas caindo no momento em que se acende a dor. Olhos de água. Não deixam de sentir. Olhos de água.

Seu nome era Toy, e da vivaça altivez de sua mosquinha berrava para que soubéssemos que as meninas sem par só poderiam dançar se chamassem o António.

Mas em Olhão, outro Toy procurava a redenção de uma partida em falso. Agora no sprint final daquilo a que eufemísticamente chama de "carreira", o ex-futuro-Eusébio e actual sobrevivente da condição física conhecida por Mawetakwápepatoy, assinou o tento que colocou a bejeca na calejada mão do S.C. Olhanense, agremiação que há 34 anos não sorvia o cálice do prazer original.

Porém, os 6 golos e 7 amarelos do avançado ex.quase.futuro@pantera.negra.pt nunca teriam sido possíveis sem o criativo Deus que arma o jogo algarvio. Messi, o símbolo do futebol romântico que persiste em mastigar o calcio mecânico-musculado e a cuspi-lo com desprezo. Com Messi em campo, a mais bela escultura de Donatello toma vida sobre o relvado, com a comovente anuência de Rudolf Nureyev observando em plié todo este quadro digno do pincel de Gauguin.
Obrigado, Mágico Messi. Olhão te ama, coño.

















Na Invicta, não houve apenas uma agremiação de copo na mão. Na estação de metro de Vidal Pinheiro, festejou-se durante um mês inteiro.
A II Distrital já é passado, um pesadelo do qual Cao acordou com suores frios e espancou violentamente até ele se retirar e pedir perdão por ter existido.

A Fénix voa, minha gente. A Fénix sobe, altiva, orgulhosa, e com a certeza de não queimar as asas como Ícaro. Pois Ícaro era um jovem valoroso, mas não tinha a ajuda de um Falmeida. Não tinha Renato de seu lado. E todos sabemos que Cao é o melhor amigo do Homem.

Os campeonatos profissionais já não são apenas um sonho, são um objectivo palpável e sedutor, que sorri provocador, piscando o olho à Fénix. Porém, precisará a Fénix de mais ajuda?
A caixa 5, sector 2 da Exponor está sempre aberta. Mesmo para quem tem mais do que 5 unidades.

Finalizamos com um campeão que não o foi.

O boné da JCA viajou até Oeiras, em ambiente festivo e protegendo inúmeras sardinhadas do impiedoso sol. Porém, veio de lá vazio, sem taça e sem massa.
Mas um campeão faz-se de taças, ou da forma inequívoca como arrebata corações e conquista almas diletantes?


Hoje, meus amigos, habemus campeone. Ferreirem-me os Paços, pois Jorginho levou o Senhor Bigode à final da Taça Millenium, depositando uma saudável dose de verdadeirismo nos cofres depauperados da portugalidade, e passando um peludo cheque endereçado a todos nós.

Jorginho cultivou, Jorginho deixou crescer, e Jorginho disse: "Para vocês, Portugal, um cheque no valor de 5.000 juras de amor."

E nós, companheiro Jorge, nós seremos a tua muralha de palha d'aço.

Campeão allez.
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